Opinião Médica

13/03/2013

“O médico tem de ouvir o paciente”

O cardiologista Eduardo Formiga, 53 anos, dedica mais de 12 horas do seu dia a cuidar de pacientes que se encontram em estado crítico e no limiar da vida e da morte. Diretor da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Lúcio Rebelo, Dr. Eduardo veio para Goiás fazer medicina de referência em cardiologia, depois de se especializar e trabalhar nas principais instituições de saúde do Brasil, a exemplo da Beneficência Portuguesa, do Incor e do Hospital Sírio-Libanês. Para o médico, a UTI, por ele considerada o coração do hospital, não é lugar para o paciente morrer e sim para restituir e promover a saúde de qualidade. Experiente, capacitado e atento aos deveres científicos e éticos, Dr. Eduardo Formiga tem a firme convicção de que ponto de partida ao melhor diagnóstico ainda é o exame clínico criterioso. “O profissional tem de conhecer o paciente se quiser fazer a boa medicina”, comenta em entrevista que inaugura espaço “Opinião Médica” no site do Hospital Lúcio Rebelo.

 

LR - Quais os requisitos para o médico trabalhar em Unidade de Terapia Intensiva?

Eduardo Formiga –Fundamentalmente, ele precisa ter treinamento adequado para lidar com pacientes graves. Precisa ter conhecimento teórico para cuidar das diferentes situações clínicas que levam um paciente à UTI. E, por fim, o médico precisa estar em permanente atualização científica pertinenteàs inovações da medicina.

 LR – Como é cuidar do paciente que se encontra no limite da vida e da morte?

Eduardo Formiga – O médico com experiência em situação de gravidade precisa ter bom-senso e discernimento para saber até onde ele pode chegar. Precisa saber, por intermédio do seu conhecimento e experiência profissional, que o paciente tem ou pode ter um limite, que ele tem uma possibilidade de recuperação ou não. O médico precisa agir com bastante racionalidade para saber se pode atuar de forma mais ou menos agressiva na administração do tratamento.

LR – O que a pessoa pode fazer para evitar ser internada em uma UTI cardiológica?

Eduardo Formiga – Tudo começa quando não se tem doença nenhuma. Quando se faz a prevenção primária em nível de consultório é possível identificar aquelas pessoas que têm propensão para risco mais sério ou que possam estar incluídos em algum grupo de risco. Os exames preventivos são muito eficientes no sentido de identificar na população aqueles indivíduos que possuem maior combinação de fatores de risco de ter um ataque cardíaco ou outras doenças de efeito súbito que podem conduzi-los à UTI. Então, tudo começa no consultório do médico, no exame clínico.

LR – O que é verdade e o que é mito em matéria de prevenção de patologias cardiovasculares, uma vez que, por exemplo, o alimento antes considerado vilão à saúde passa a ser tratado como saudável?

Eduardo Formiga – Os exames de diagnóstico, sozinhos, não são suficientes para determinar se um paciente se situa em grupo de maior risco. Cabe ao médico entender as condições de vida da pessoa, os seus hábitos, os antecedentes de família etc. Em relação às condutas de boa saúde que dizem por aí há muita especulação. Temos de nos ater às verdades da literatura científica no que se refere aos hábitos saudáveis de alimentação e atividade física. Em relação à atividade física é preciso frisar que a musculação, por exemplo - os exercícios anaeróbicos - não promove saúde. Correr, nadar e pedalar - os aeróbicos - estes sim são recomendados à prevenção de doenças cardiovasculares. No que se refere à alimentação a gente sempre ouve falar que tal coisa é saudável, outra não, e que existem alimentos milagrosos como alho, cebola, berinjela, óleo de peixe etc.Tudo isso na literatura médica já foi testado. O que a gente sabe, com certeza, é que o consumo excessivo de sal e gordura pode levar, em alguma fase da vida, a doenças cardiovasculares.

LR – É verdade que a mágoa e as angústias matam mais que as doenças cardiovasculares?

Eduardo Formiga – Sintomas ligados ao psiquismo são naturalmente nefastos à saúde. Antigamente a literatura médica pontuava que somente o estresse podia ser fator de risco a doenças cardiovasculares. Há mais de dez anos está comprovado que a depressão também é anormalidade psíquica que tem muita relação com os eventos cardiovasculares agudos.

LR – Não está faltando à medicina aquele exame clínico apurado de antigamente, quando o médico não tinha à mão os recursos dos exames de diagnósticos avançados?

Eduardo Formiga – Certamente! Por conta das condições profissionais dos médicos, há muitos profissionais que não têm muito tempo, ou não podem ter muito tempo, para fazer exame clínico mais investigativo. Há médicos que pedem de imediato vários exames, sem examinar o paciente, o que não é prática recomendável e ética. O paciente vai ao consultório para conversar e dizer o que quer. O médico tem obrigação de ouvi-lo, de entender suas angústias, e de investigar as suas condições sociais, a história de seus sintomas, para finalmente chegar ao diagnóstico. Os exames, depois, serão complementares ao diagnóstico e não o seu fator determinante. O exame clínico sempre será fundamental à investigação dadoença e àindicação do tratamento.

LR – O senhor se formou e trabalhou nas mais importantes instituições de saúde do Brasil e veio fazer medicina em Goiás. O senhor já realizou o que aspirava ser como médico?

Eduardo Formiga –Acho que nunca fica-se satisfeito com o que se tem. Sempre se quer mais. Eu comecei a trabalhar muito cedo e intensamente, desde 14 anos, até me formar em medicina.Não tem sido diferente. Mesmo com 53 anos e 25 de medicina, acho que estou começando na profissão. Tenho energia e vontade de estar sempre no hospital e trabalhar, assimilar as inovações da medicina e estudar, porque o conhecimento evolui com impressionante rapidez. A experiência nos dá segurança para ter maturidade médica e pessoal, o que faz enorme diferença. Quando comecei na medicina não havia praticamente nada do que se tem hoje. No último quarto de século a medicina mudou muitas vezes e vai continuar em permanente aperfeiçoamento.

LR – Caso médico recém-formado lhe pedisse um conselho profissional, o que senhor diria a ele?

Eduardo Formiga – Daria vários conselhos. Talvez o mais útil fosse o que ouvi, quando ingressei na medicina, de meu chefe, o professor Radi Macruz: “Siga as suas suspeitas pessoais e intuições em vez acreditar fielmente na opinião dos outros. Faça, sempre, o seu diagnóstico e não aceite os pré-fabricados ou re-passados. Faça o seu diagnóstico todos os dias porque é intransferível a relação entre médico e paciente.”

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